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Secretaria Municipal da Cultura, Coordenação de Artes Plásticas e AAPIPA apresentam:

o tempo das coisas - módulo 2

O que se insinua sob a aparência das coisas.


Uma coisa é sempre algo em condições de ser e existir. Não só enquanto evidência de um fato consumado ou de um ato efetivado, como daquilo que ainda pode vir-a-ser. É algo assim a sugestão que encontramos ao revisitar as reflexões de Martin Heidegger, em suas conferências de 1936 reunidas no livro “A origem da obra de arte”. Ao teorizar sobre o que chama de “aspecto coisal da obra de arte”, afirma o filósofo alemão: 


“Todas as obras têm este caráter de coisa. (…) A obra de arte é, com efeito, uma coisa, uma coisa fabricada, mas ela diz ainda algo de diferente do que a simples coisa é. A obra dá publicamente a conhecer outra coisa, revela-nos outra coisa”.  
Essa dimensão enigmática, pela capacidade de desestabilizar a aparência do óbvio que repousa sobre as coisas, é tomada neste projeto curatorial como uma noção indagativa com a qual se procura aprofundar uma meditação sobre a experiência com a arte no contexto de sua apresentação — a circunstância expositiva. 


“O tempo das coisas” é uma investigação interessada nos atravessamentos, nas contaminações e nos atritos entre processos artísticos, procedimentos curatoriais e estratégias expositivas. Inicialmente, e apenas como ponto de partida, a ideia de que uma obra sempre se endereça a alguma coisa para logo dar lugar a outra coisa, não apenas por meio da materialidade que afirma sua presença no mundo das coisas todas, como também pela potencialidade de fundar o seu próprio tempo de acontecimento entre as demais coisas. 


Se a obra é ainda “uma coisa à qual adere ainda algo de outro”, como argumenta Heidegger, está para além do que ela dá a ver. Assim, tende a ser coisa à medida em que se revela ao mesmo tempo que se esconde; em que se apresenta ao mesmo tempo que desvia. Esse jogo que engendra a noção de coisa conforme aqui convocada contém em si a probabilidade de um acontecimento a se desvelar como um devenir incerto, impreciso e indeterminado, ao qual diversificadas práticas artísticas contemporâneas parecem confluir em seus distintos processos e estratégias.


Para nos lançarmos a sondar o invisível e o indizível que se encondem sob a aparência das obras enquanto coisas, pode ser válido tomarmos novamente emprestadas as palavras de Heidegger, para quem “tudo o que se queira entrepor entre nós e a coisa como concepção e enunciado deve ser afastado”, uma vez que somente assim “poderemos abandonar-nos à presença não mascarada da coisa”.


Francisco Dalcol
Crítico de arte, jornalista e pesquisador.

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