NATALIA SCHUL: DESCABER

O corpo no lugar e o lugar do corpo

   Uma artista sozinha em uma sala realiza ações aparentemente sem sentido prático.
Gira, cai, parece querer moldar-se a objetos. Experimenta lugares com seu corpo, cria espaços com seus movimentos. Gestos comuns, realizados especialmente para a câmera, tornam-se subitamente insólitos, desacomodando os automatismos do cotidiano. Cerca de quarenta anos antes, outra jovem artista fotografava
insistentemente a si mesma em situações em que corpo e espaços se fundiam em imagens carregadas de tensão e estranhamento. Descaber, exposição individual de Natalia Schul, apresenta fotografias e vídeos que pontuam o desenvolvimento de uma pesquisa poética iniciada a partir de descrições encontradas na internet de fotografias
de Francesca Woodman (Estados Unidos, 1958-1981). Natalia toma essas descrições como instruções para realizar seus trabalhos, mas também elabora suas próprias sinopses para as cenas que deseja criar, em um ir e vir entre imagens e textos.

 

   Trata-se de um processo artístico calculado, mas ao mesmo tempo empírico e sensorial, que dialoga com o surrealismo, com a arte conceitual, com os pioneiros da videoarte e com a fotografia encenada dos anos 1970 e 1980. Nessa série de tarefas autoimpostas, as instruções são oponto de partida, como uma partitura, mas algo sempre se transmuta na passagem da teoria para a prática. O acesso a essas experimentações solitárias em lugares privados, no entanto, só é possível pela mediação da câmera. Natalia inventa formas de habitar não apenas os espaços, mas também as imagens, convidando-nos a aprender tanto com o corpo quanto com o jogo
de reflexos e deslocamentos proporcionados pela fotografia e pelo vídeo.

 

Camila Schenkel

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