CLAUDIA PAIM: CORPOPAISAGEM
Claudia Paim: uma artista múltipla

Abordar essa exposição seria impossível sem me reportar às memórias marcantes de um tempo prazeroso de amizade e parceria artística com Claudia Paim (1961–2018). Conheci a artista no início dos anos 2000, quando a escrita e a admiração recíproca nos aproximaram. Com o tempo, cada qual trilhando seu caminho, perdemos o contato, até que, em 2013, nos encontramos na rua, por acaso, e eu a convidei para visitar uma intervenção minha, que estava acontecendo naquele momento. Durante a visita, Claudia realizou uma performance de modo espontâneo, no ambiente da intervenção, que constava de uma rede de pesca suspensa em uma árvore. Registrei a performance em vídeo e em fotografias, e rapidamente houve uma compreensão mútua de que poderíamos elaborar um trabalho conjunto. Alguns meses depois, realizávamos a primeira exposição em parceria, no Plataforma Espaço de Criação, então coordenado pelos artistas Clóvis Martins Costa e Lizângela Torres.

O que mais nos marcou, naquele momento, foi a liberdade: todas as decisões eram somente nossas, desde a seleção dos trabalhos até a montagem. Não convocamos curadoria, nem nos preocupamos com um texto de apresentação. Simplesmente reunimos imagens de ambas, que selecionamos dos arquivos digitais preservados em nossos HDs. Tudo fluía dentro da consciência de um tempo harmonioso e exuberante. Claudia Paim era, acima de tudo, uma alma independente. Imersa naquela proposição, ela decidiu acrescentar novos trabalhos e realizar uma performance inédita, a ser apresentada durante a abertura da mostra: em todos ela incluiria búzios coletados em praias do Uruguai e da cidade de Rio Grande. Foi quando lembrei das conchas que também tinha em casa, e então fotografei Claudia, no jardim do meu edifício, com mãos e conchas entre os cabelos, ou apenas segurando as conchas.

Várias foram as elucubrações poéticas durante esse movimento fecundo de ideias. Aquelas novas imagens eram a representação de um corpo e seus extremos (cabeça e mãos) se confundindo com a natureza, à qual acrescentamos significados relacionados com nossas visões de mundo. Vivíamos (e vivemos) situações limites: extremos climáticos, extremos político-sociais. Aquelas imagens poderiam ser, ainda, a transmutação de uma situação limítrofe, na qual as fronteiras se amalgamam e, inevitavelmente, se transformam. Mãos-cabelos-conchas-pedras-terra. Cabeça-corpo-natureza.

Claudia era forte, resiliente, imaginativa, bem-humorada, sem dramas. Poucos eram os obstáculos que ela não pudesse transpor. Se houvesse algum ranço de minha parte, em relação a algum iminente problema durante o processo de construção do trabalho, sua leveza e risada conseguiam desmanchar qualquer sombra. Como é possível imaginar, propostas conjuntas desdobram-se em um terreno delicado e, às vezes, com risco de grandes conflitos. No entanto, ela nada temia e inclusive sugeriu que nossos trabalhos (imagens e objetos, por exemplo) se posicionassem lado a lado nas exposições, formando uma única proposição. Como artista, Claudia Paim percebia a importância das práticas coletivas na contemporaneidade, tanto que desenvolveu pesquisa acadêmica sobre o assunto. Porém, de um modo muito mais amplo, sua obra magnetizava as pessoas em sua volta: a família, os amigos, os colegas, os artistas. Mesmo em suas atuações individuais – performances e ações em espaços públicos e na execução das fotoperformances – a participação do outro era inevitável. 
 

Foram inúmeras parcerias que ela estabeleceu ao longo de seu percurso artístico. O companheiro, músico e compositor Ulises Ferreti (falecido em 2014) fazia trilhas sonoras para seus trabalhos em vídeoarte, cuidava da sonoplastia de algumas de suas performances e instalações sonoras, além de fotografá-la em suas ações. Vários artistas integraram coletivos com Claudia, ou participaram direta ou indiretamente de seus projetos, fazendo registros importantes de sua obra, tais como: Luciano Zanette e Marcelo Gobatto (Coletivo POIS), Denis Rodriguez e Leonardo Remor (registros de performances), Ali do Espiríto Santo (videoperformance Não , 2016), Mauro Espíndola e Camila Leichter (Moinho Edições Limitadas), Leandro Machado, Claudio Maciel, Rodrigo Munhoz, Ali Khodr e Luciana Menna Barreto, entre outros.

Claudia Paim foi uma artista múltipla e generosa; uma artista que atuava tanto em coletivos quanto individualmente. Produzia instalações, performances, desenho, arte sonora, ação urbana, fotografia, objeto e poesia. Seu legado revela não apenas sua sensível e atenta personalidade, como a fluidez e a generosidade de seu “estar no mundo”: receptivo às pessoas, às coisas, aos espaços, aos seres. Enfim, uma artista aglutinadora e inesquecível que está aqui nesta exposição, com sua obra pulsante e transformadora. 

 

Dione Veiga Vieira

Porto Alegre, junho de 2019

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