Judith Fortes: 70 anos depois

      A partir de 23 de novembro, estará aberta para visitação uma mostra de pinturas da injustamente pouco conhecida artista Judith Fortes. Pesquisadora de arte e feminismo, em especial no âmbito da história rio-grandense, a jornalista e historiadora da arte Rosane Vargas realizou um trabalho de prospecção de dados biográficos e levantamento de obras, documentos e depoimentos sobre esta pioneira na profissão de artista plástica em uma Porto Alegre que, nas primeiras décadas do século XX, estava ainda longe de possuir um sistema consolidado tanto em termos de mercado, quanto em termos de espaços museológicos e expositivos.

      Segundo Rosane Vargas, curadora da exposição:

      “Para uma mulher, no início do século XX havia poucas profissões consideradas ‘decentes’ e aceitáveis. Artista, definitivamente, não era uma delas. Ainda que as moças de boa família fossem estimuladas a aprender pintura, desenho, música, isso era visto, de modo geral, apenas como um toque de requinte na educação.

      Judith Gonçalves Fortes (1896–1964) se situa na primeira geração de alunas e alunos formados pela Escola de Artes de Porto Alegre do Instituto de Bellas Artes (atual Instituto de Artes da UFRGS), na qual se diplomou em 1922. Entre as décadas de 20 e 40, realizou diversas exposições de pintura; em sua maioria, coletivas, e equilibrou a carreira de artista com a de professora em um curso privado que manteve por anos e em instituições conhecidas, como o Instituto de Educação Flores da Cunha.

      Seu envolvimento com o meio artístico, a organização e a busca por novos espaços para os/as artistas ficam evidentes em sua presença constante nas competições em salões de arte e, em 1938, quando participa da criação da Associação de Artes Francisco Lisboa. Há poucas informações sobre individuais da artista. Segundo pesquisa feita para esta exposição, a última teria ocorrido no final dos anos 40. Sete décadas a separam, portanto, da mostra que agora ocorre no Paço Municipal.

      A artista era reservada, não se deixava fotografar, e não foram encontrados registros de suas opiniões a respeito de sua produção poética ou se questionava seu lugar enquanto artista e mulher em um período em que os obstáculos eram muitos para a consolidação de carreiras femininas. Ainda assim, Judith Fortes é um exemplo contundente do lugar de esquecimento em que ela e a geração de artistas mulheres a que pertenceu foram colocadas.”

      A exposição, que contará com um conjunto de obras assinadas por Judith Fortes pertencentes aos acervos da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo do Instituto de Artes da UFRGS, da Pinacoteca Ruben Berta e da Pinacoteca Aldo Locatelli, é a primeira edição do projeto “Mulheres, a fonte”. Trata-se de uma ação cultural de longo fôlego desenvolvida pela Coordenação de Artes Plásticas da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, que propõe uma atitude a favor da promoção da igualdade de gênero, na produção e na circulação das artes visuais e, ainda atuar numa espécie de rememoração positiva como antídoto ao esquecimento histórico ao qual uma gama de mulheres artistas foi submetida.