Arte+Biografia: Tibério no plural

      Abordar alguns aspectos da vida de Wilson Tibério, contextualizados com obras de outros artistas pertencentes aos acervos da Pinacoteca Aldo Locatelli e da Pinacoteca Ruben Berta. Esta escolha curatorial decorreu da escassa presença de trabalhos de Tibério em Porto Alegre: até o momento foram localizados apenas um autorretrato na Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, uma cena de interior na Pinacoteca Aldo Locatelli e uma aquarela em coleção particular.

      De tal sorte que o diálogo com outros artistas surgiu como caminho possível para realizar esta exposição-homenagem. E da mostra participam também os artistas contemporâneos Leandro Machado e Gustavo Assarian, cujas recentes produções demonstram uma série de continuidades e aprofundamentos das temáticas abordadas de forma pioneira por Tibério desde a década de 1940.

      Tibério é um nome a ser lido no plural. Desconhecido para a maioria dos atuadores no campo das artes, o seu trabalho e sua biografia aos poucos estão sendo descortinados com a necessária reverência que deve ser concedida aos pioneiros, ou para aqueles transgressores situados nos entre-lugares, difíceis de localizar em movimentos e tendências.

      Mas um ponto de interesse o aproxima do olhar atual: a sua história e obra mostram estratégias antirracistas que antecederam às práticas contemporâneas. E é com o mesmo movimento dos dicionários ao potencializar palavras e ações que ganham novos significados que reproduzimos o texto da pesquisadora Francielly Dossin como se verbete fosse:

      “Tibério foi um artista (1916-2005) afro-brasileiro engajado no debate antirracista e colonialista do século XX. Pintor e escultor nasceu em Porto Alegre e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde residiu até deixar o Brasil em 1947, quando com uma bolsa de estudos emigrou para a França. A partir da Europa viajou para diversos países como artista convidado, como a China e a União Soviética, e viveu longas temporadas na Costa do Marfim, no Senegal e na Itália. Em Paris se relacionou com importantes personagens da diáspora africana e do movimento Négritude.”

      Quando palavras e conceitos trafegam pela realidade sorrateiramente escapam dos dicionários e é aí se pode dizer que o porto-alegrense Tibério foi definido em vida e obra pela condição de ser negro. Recusou a uma humanidade subalterna, e mais do que um direito a vida, suas obras propunham o direito à existência. A diferença? Existir carrega sentidos.

Pedro Rubens Vargas

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